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Futuro do trabalho no Brasil: mudanças na natureza do trabalho

Pandemia e tecnologias da quarta revolução industrial reconfiguraram ofertas, demandas, vagas, funções e status de diversas profissões; tipologia ajuda a entender o cenário do presente e aponta como será o futuro do trabalho

Paul Ferreira
25 de junho de 2024
11 min de leitura
Futuro do trabalho no Brasil: mudanças na natureza do trabalho

“Muito se discute atualmente sobre o futuro do trabalho. Nesta MIT Sloan Review Brasil, por exemplo, encontramos diversos materiais sobre o tema. Na esteira do debate, gostaria de apresentar neste artigo uma reflexão sobre o futuro do trabalho no Brasil.

Para encarar esse exercício complexo, dividi a questão em quatro pilares fundamentais: (1) a natureza do trabalho, (2) a força de trabalho, (3) a execução do trabalho e (4) a educação.

Essa proposta, no mínimo desafiadora, não poderia ser reduzido num único texto. Por isso, iniciamos aqui uma série de três artigos. Neste primeiro material, escrevo sobre futuro e discorro sobre o primeiro pilar, a natureza do trabalho.

No segundo artigo, irei detalhar a força e a execução do trabalho, para que no terceiro e último material possamos refletir sobre educação, propondo, ainda, a construção de uma agenda positiva sobre o futuro do trabalho no Brasil.

Uma tipologia do futuro do trabalho

Nos últimos anos vimos um crescimento de ricas discussões sobre o futuro do trabalho. Nesta série, levaremos em conta os novos desenvolvimentos tecnológicos que estão contribuindo para a quarta revolução industrial. Essas mudanças estão modificando as práticas de trabalho estabelecidas, as estruturas organizacionais e as instituições da sociedade.

Além disso, os efeitos da inovação tecnológica estão sendo amplificados por tendências demográficas e mudanças sociopolíticas, que foram aceleradas com a crise causada pela covid-19. Assim, para lançarmos algum entendimento sobre o futuro do trabalho) é preciso entender que as organizações, os indivíduos e a sociedade estão inseridos num mundo globalizado e tecnológico. Por mais que isso possa parecer óbvio, às vezes, no dia a dia, essa dimensão escapa dos nossos horizontes.

Em complemento, para escrever essa série de artigos, foi necessário fazer uma revisão de obras que conversam com o tema. Além disso, foi fundamental a realização de entrevistas com especialistas, executivos e levantar um estudo quantitativo sobre o assunto.

Ao todo, foram realizadas duas pesquisas com executivos de diversas áreas do mercado. As pesquisas foram realizadas nos períodos de novembro de 2019 e abril de 2020, e totalizaram 1.294 participantes únicos. Tais análises nos ajudam a compreender como a covid-19 afetou as percepções acerca do futuro do trabalho. Os dados quantitativos das pesquisas servem de base para a construção da série de artigos.

Somente a partir desse conjunto de referências foi possível identificar as quatro dimensões – que podemos chamar de tipologia – que ajudam a delimitar e direcionar o tema para algo mais concreto.

Para demonstrar a utilidade e o potencial dessa tipologia, alinhamos cada pilar do futuro do trabalho com temas relevantes para a discussão, indo além dos esforços de John Hagel, Jeff Schwartz e Josh Bersin em Redefining Work: Three Forces That Are Reshaping Jobs, estudo lançado em 2018 que discute mudanças profundas na natureza do trabalho a partir de três forças: tecnologia, demografia e o poder de atração.

Como acelerar uma revolução: tecnologia e covid-19

As revoluções industriais geram mudanças estruturais nas relações trabalhistas, levando à criação de novas formas e dinâmicas de trabalho possibilitadas pelos avanços tecnológicos, perspectiva essa trabalha por Gregory Mankiw em Introdução à Economia. O futuro do trabalho hoje é, portanto, o ambiente de trabalho desenvolvido e possibilitado pela quarta revolução industrial.

Desse modo, os avanços tecnológicos desse período revolucionário que estamos vivendo culminaram na criação e a futura implementação generalizada da inteligência artificial, redes neurais, da internet das coisas e do trabalho remoto, com o fortalecimento do comércio eletrônico, como nos lembra o cientista da computação Kai-Fu Lee no livro Inteligência Artificial.

Adicionalmente, a pandemia da covid-19 gerou uma aceleração e um aprofundamento no ritmo das mudanças previstas antes de 2020 para um longo prazo. Essas mudanças, que dificilmente serão revertidas integralmente após a pandemia, incluem a implementação em larga escala do trabalho remoto e a substituição de diversos trabalhadores por máquinas, que possuem hoje níveis de produtividade equivalente ou superior ao do trabalho humano por um custo menor.

Nesse sentido, é possível identificar uma mudança substancial na primeira dimensão: a natureza do trabalho, uma vez que os empregos hoje existentes mudarão a forma que serão ofertados ou serão extintos, mudando assim a função do trabalho dentro das empresas.

Outros efeitos virão, ainda, das mudanças demográficas, como o envelhecimento da população, mudanças culturais da sociedade e aumento da participação feminina no mercado, gerando transformações significativas na composição e nas habilidades presentes em nossa segunda dimensão: a força de trabalho.

Ademais, outras mudanças aceleradas pela covid-19 causaram efeitos substanciais em nossa terceira dimensão: a execução do trabalho; ou seja, mudanças na forma como o trabalho é executado hoje. Desse modo, o trabalho remoto e o anywhere office têm consequências significativas, como horários de trabalho mais flexíveis e novas preocupações em relação ao bem-estar dos colaboradores.

Essas mudanças culminam em nossa última dimensão: a educação. Uma vez que a oferta de educação se adapta às demandas do mercado de trabalho, a forma como a educação é ofertada, financiada, ou até mesmo vista pelos recrutadores, sofrerá mudanças significativas. A imagem abaixo traz um breve resumo sobre os temas que serão aqui discutidos neste artigo e ao longo da série:

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Da natureza do trabalho: oferta, demanda e substituição

Sob o sistema capitalista, a função social da empresa é a de ofertar o que é demandado pela sociedade. Sob esta ótica de oferta e demanda, as empresas que se destacam e crescem no mercado são aquelas que melhor ofertam seus produtos a custos mais baixos que suas concorrentes, o que é facilitado pela implementação de novas tecnologias. Essa perspectiva é trabalhada, por exemplo, em Ação Humana, obra escrita por Ludwig von Mises, economista expoente da praxiologia.

Adiante, a pesquisa global do ‘futuro do trabalho’ conduzida pelo World Economic Forum em 2020 sugere que, em média, 15% das vagas de trabalho correm risco de deixar de existir em um horizonte de cinco anos. No contexto brasileiro, um estudo realizado na Universidade de Brasília (UnB) apontou que 54% das vagas de trabalho estão em risco no país e poderiam ser fechadas até 2026 se houvesse uma substituição completa de trabalhadores humanos por tecnologia já existente, e com produtividade superior à humana.

Nesse sentido, é possível observar que as funções que correm o risco de serem substituídas por máquinas são aquelas que demandam um esforço rotineiro e repetitivo por parte dos trabalhadores.

O especialista entrevistado para essa série, Paulo Vicente, afirma que: “Há três coisas que o ser humano ainda faz melhor que uma máquina: lidar com outro ser humano, resolver problemas e criar. A maior parte dos empregos do futuro estão ligados a essas áreas.”

Por exigir pouco do componente humano que falta às máquinas, como a capacidade de criar e inovar, as tarefas rotineiras estão sendo rapidamente substituídas por novas tecnologias, capazes de desempenhar essas funções de maneira igual ou mais eficiente.

Gig economy e força contingencial: o presente e o futuro do trabalho

Sob a quarta revolução industrial, percebe-se que, se por um lado, atividades rotineiras e repetitivas passam por esse processo de substituição, por outro, há um aumento da demanda por empregos em trabalhos analíticos e conhecimento-orientados, áreas onde a IA e redes neurais ainda não alcançam o ser humano.

Essas atividades ganham destaque justamente por constituírem funções ainda desempenhadas de maneira mais eficiente por humanos, em relação às máquinas. Assim, é possível perceber que determinadas atividades profissionais estão mais susceptíveis a tornarem-se obsoletas diante das Mudanças a serem observadas no futuro do trabalho.

Em outras palavras, essas mudanças tecnológicas geram grandes consequências, principalmente no tocante ao desemprego, às novas modalidades de trabalho e às mudanças contratuais na relação empregado-empregador.

Nesse cenário, uma nova modalidade de trabalho, a GIG economy, se destaca, sendo caracterizada como a atuação da força de trabalho por meio de trabalhos temporários, com contratações por projetos ou horas, muitas vezes oferecidos por profissionais freelancers. Para quem opera na GIG economy, é possível encontrar e trabalhar para empregadores no mundo todo, graças às tecnologias digitais.

A pesquisa realizada pelos autores revelou que 87,4% dos especialistas acreditam que a tecnologia possibilitará uma quebra de paradigmas nas contratações após a pandemia de covid-19, e isso deve incluir a maior contratação de profissionais da GIG economy.

Entretanto, a GIG economy não afeta todos os trabalhadores da mesma forma. Os profissionais de alta renda e alta escolaridade são aqueles que têm maior acesso à flexibilização do trabalho e ocupam, na GIG economy, as posições de maior renda. A flexibilidade acessada por esse profissional não o expõe, necessariamente, a condições de vulnerabilidade social.

Já os profissionais de baixa renda e baixa escolaridade têm menor acesso à flexibilização do trabalho e, na GIG economy, formam a força de trabalho contingencial. Além de realizar trabalhos de menor remuneração, atuando como colaboradores em empresas como Uber, Rappi e Ifood, esses profissionais estão também mais expostos às condições de vulnerabilidade social.

O surgimento da GIG economy e da força contingencial estão diretamente relacionados às mudanças na natureza no trabalho, impulsionadas pelos avanços tecnológicos e pela pandemia. Nesse sentido, é interessante abordar também como tais mudanças podem afetar a remuneração e prestígio social de determinadas profissões, ressignificando assim o valor do trabalho frente à sociedade.

Base da pirâmide: remuneração e utilidade social

Ao longo da crise sanitária da covid-19, foi possível observar a perda da invisibilidade de profissões até então consideradas precárias e de pouco prestígio social, como lixeiros e garis. As dificuldades enfrentadas coletivamente demonstraram a importância social dessas funções, o que leva inevitavelmente a um debate em relação ao status e remuneração atribuídos a esses trabalhadores.

Leia também: Redefinindo o valor do trabalho – parte 2

É dentro dessa lógica que se faz essencial repensar não apenas o prestígio, mas também a remuneração em função da utilidade social. Normalmente, observa-se uma atribuição de altos salários a uma alta utilidade social, e vice-versa. Entretanto, observamos ao longo da pandemia que a alta utilidade garantida por empregos essenciais de fato não corresponde a sua verdadeira contribuição para a sociedade.

Tal reflexão abre caminhos para que sejam repensados os salários de diversos trabalhadores invisibilizados na lógica capitalista, além de debates como a renda básica universal e o salário digno. Esse debate torna-se mais complexo dentro do capitalismo digital, em que a digitalização das relações sociais contribui para a desumanização dos trabalhadores. A perda de contato humano leva a uma inerente segregação da sociedade e das desigualdades, e traz dúvidas em relação à ressignificação do valor do trabalho.

Ao longo dos próximos anos, observaremos como tais mudanças irão influenciar a natureza do trabalho em meio a um cenário cada vez mais digitalizado, ágil e complexo. Além disso, abordaremos as consequências de tais mudanças tanto na força de trabalho quanto no mercado no próximo artigo desta série.

Por fim, faço uma agradecimento especial a Julia Morato e Lucas Villafuerte pela assistência no projeto de pesquisa que resultou nesta série de artigos.

LEIA TAMBÉM >>>Futuro do trabalho no Brasil: mudanças na força de trabalho e na execução

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Paul Ferreira
É professor em tempo integral de estratégica e liderança na Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP, Brasil), diretor do mestrado executivo em administração (MPA) da FGV EAESP e vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP). Desde 2020, Paul é colunista do MIT Sloan Management Review Brasil. Além disso, ele é pesquisador visitante permanente na Universität St. Gallen (Suíça).

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